segunda-feira, 19 de abril de 2010

Pausa

Cavaquinho e surdo.

Parei.

Dessas paradas que a gente dá de repente, ante uma provocação.

Estava aqui diante do computador, assitindo uma videoaula, assimilando teorias, conhecimentos... E me vi ante uma provocação: a valorização do profissional que sou, pela sociedade, por mim mesmo. Duro é pensar sobre si mesmo criticamente. Pior é pensar-se criticamente e ser pelo meio que se pretende modificar desvalorizado.

Oras, o que estou fazendo? Estudando para quê? Para perpertuar um modus vivendi assim, mais ou menos, que só vai me mudar de cidade, se passar num outro concurso, mas sob condições profissionais semelhantes?

Que motivação me leva ao comprometimento profissional? O estresse diário? Não. O pouco interesse das mentes às quais supostamente medio a aquisição de um suposto conhecimento? Não. Mas há algo, ainda há algo... Certamente não seria a necessidade de superação das dificuldades financeiras; essas todo mundo de alguma forma tem (todo mundo que tem uma profissão, digamos, não muito geradora de lucros). Não?

Então continuei a observar a videoaula. Eis que foi citado um pensamento exposto no livro Gabriela, cravo e canela, que reflete o pensamento político da época de seu lançamento, mas que me ironicamente pareceu-me bem atualizado:

"E que é um professor, na ordem das coisas?
Que tem o ensino a ver com poder?
Como podem as palavras se comparar com as armas?
Por acaso a linguagem já destruiu e construiu mundos?"
(resposta que a mãe dá à filha quando esta lhe diz que vai casar-se com um professor).

E que é o eu-professor, na ordem das coisas? E que eu sou, na ordem das coisas? Qual é mesmo essa ordem das coisas?

Até recorrer à historinha do menino que lança de volta à água as estrelas-do-mar amontoadas na praia, acreditando que pode fazer diferença ao menos àquela que lança - já que não pode salvar todas -, eu recorri. Que otimista!

Às vezes considero que refletir é prejudicial, sabe. A gente aprende na Academia que não, que é prática essencial e transformadora de realidades. A minha não se modificou... E quem formulou essa teoria já morreu.

Então pergunto por que, ó Deus, enredei-me pelos caminhos crítico-sociais? Por que não me tornei burguês? E se não me tornei, por que diabos não vivo como muitos outros que também não se tornaram, não se interessam por reflexões transformadoras, e para quem a felicidade é garantir um "churrasco e pagode" todo fim-de-semana?

Droga, perdi a hora! Tenho que voltar aos estudos.