quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Sobre cotas raciais (Anti-Sheherazade)

Sobre cotas raciais (contra-argumentação a respeito da opinião da "jornalista" Rachel Sheherazade, acostumada a falar sobre problemas sociais sem estar envolvida neles...).

Começo com os dados comprobatórios. As cotas beneficiavam estudantes de Federais, agora também beneficiam cerca de 400 mil estudantes com o ProUni, com 8% das vagas. Cerca de 59.342 no ano passado para as Federais e Estaduais. Quase 500 mil vagas no Ensino Superior. Diante do número de habitantes do país pode parecer pouco, mas é muita coisa para esses 500 mil, cujo espaço na Universidade de acesso "embranquecido" (consequência das melhores condições educacionais e econômicas para os mais abastados, majoritariamente brancos) pôde ser garantido por essa ação afirmativa. Ainda para temperar mais os dados, uma pesquisa feita pela UERJ com 20% dos ex-cotistas da instituição mostra que 90% estão no mercado de trabalho e 60% destes em sua área de formação. 90% dos cotistas pioneiros não pensam em parar os estudos, entre eles, 67% já concluíram cursos de pós-graduação e 39% frequentam mestrado (pesquisa bibliográfica via Thainá de Bragança, minha ex-aluna do Ensino Médio. Parabéns, futura promotora!).

Sempre ouço que os negros deveriam entrar na universidade com condições iguais de disputa, pois "é mais coerente entrar igualmente do que fazer um brilhante curso e ter desempenho acima dos não cotistas", dizem. Por favor, quem determinou que "o acesso 'igual' na entrada é mais coerente do o desempenho brilhante na saída"? Qual a lógica disso? Vamos lá: o sistema de cotas não é para sempre, é por um período, apenas. Se a pessoa entrou por cotas, significa que houve um déficit sócio-econômico-educacional do país para essa população cotista e está sendo reparado por medida temporária de promoção desse acesso, já que as políticas públicas neste país, historicamente, nunca foram suficientes para ampararem todas as áreas essenciais a essa população específica. Por esta razão, devo ser a favor das cotas como medida TEMPORÁRIA (exatamente como é o seu caráter) de inclusão no Nível Superior.

Nos séculos XVII a XIX, queria-se no Brasil um "embranquecimento" do povo brasileiro, e de certa forma conseguiram ao restringir o acesso da população negra às áreas intelectuais, deixando investimentos na educação, inclusive a mais básica, dessa população de lado. Quando se estabelecem cotas, os candidatos competem entre si por uma porcentagem mínima de vagas e o desempenho acadêmico destes tem se mostrado efetivamente muito bom e até superior aos não cotistas (que também não significa 'brancos', mas apenas aqueles que não entraram no sistema de cotas, havendo também negros que não quiseram disputar por este sistema). Lembremos, ainda, que na UnB, por exemplo, há cotas para negros, para alunos de redes públicas, para índios e também um curso específico para surdos (Letras - LIBRAS).

Portanto, tratar os desiguais desigualmente para se atingir a igualdade de direitos é um princípio extremamente constitucional. E pretos e pardos beneficiados não receberam nada de graça: estudaram e disputaram essas vagas, fizeram o curso, demonstraram-se competentes academicamente, ingressaram e ainda ingressam sem déficit de conhecimento profissional no mercado de trabalho. Isso traz um equilíbrio nas profissões, afinal ser médico e advogado não é profissão de branco, opinião que neste país sempre foi alimentada pela opinião pública e pela realidade do mercado. Aliás, qualquer profissão é de qualquer capacitado profissionalmente, independente da raça.

Agora, por que ninguém critica o Instituto Rio Branco por abrir cotas para negros receberem bolsas de estudo, isso eu não sei. Ah, claro, o lance é questionar o acesso à Universidade, afinal sempre tem que não conseguiu entrar e resolve dizer que foi privado da sua chance pelo sistema de cotas...

Fato é que já se vai muito tempo da implantação do sistema de cotas em universidades públicas e a Educação Básica ainda está em déficit para com a população negra (além da população em geral) em políticas públicas de melhoria da qualidade de ensino. A necessidade da reforma da Educação Básica e o atingimento das metas do PNE são demandas que precisam acontecer conjuntamente à implantação do sistema de cotas, entretanto deixar uma coisa para se fazer outra primeiro também não se torna solução.

Em parceria com este processo ideal de melhoria educacional é EXTREMANTE NECESSÁRIO que haja melhoria socieconômica, pois sem dinheiro para comer, ninguém tem vontade de ir à escola, melhor é deixar educação de lado e ganhar dinheiro cuidando de carro. É nesse quesito socioeconômico que a população negra sempre foi desamparada desde a assinatura da Abolição (algo do tipo "você está livre, agora te vira 'neguinho'). Isso não pode ser desconsiderado no processo de formação econômica, social, cultural do negro como parcela constituinte da população brasileira.

Por essa razão, apoiado nos dados, o sistema de cotas é uma ação afirmativa que vem realizar uma reparação de acesso intelectual grande como nunca antes visto na história desse país, já diria o ex-presidente Lula (e concordo). Contudo, não nos iludamos: as ações políticas do Estado (seja no governo de quem for) precisam e estão obrigadas a melhorar as bases sócio-econômico-educativo-culturais conjuntamente a esse processo, e não utilizar as cotas como máscara para evitar solucionar o problema.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Sobre Umbanda e Candomblé (breve reflexão e esclarecimento)

Há algum tempo havia sido questionado sobre princípios e práticas presentes nas religiões afro-brasileiras, mais precisamente sobre Umbanda e Candomblé. Pois bem, o que escrevo aqui hoje são conhecimentos sintetizados, obtidos por meio da observação, leitura bibliográfica e, principalmente, da vivência em comunidades de espiritualidade afro-brasileira, com sua tradição oral passada dos mais antigos para os mais novos participantes.

Um conhecido meu questionou-me sobre determinada nomenclatura que sempre ouvira falar em se tratando de regiões de matrizes africanas, que são as tão citadas "linha de direita" e "linha de esquerda". Essa nomenclatura faz parte da Umbanda, religião brasileira que mistura princípios do Catolicismo, Espiritismo e práticas culturais e religiosas africanas, além de princípios e cultos indígenas também.

"Direita", dentro da Umbanda, refere-se (não de maneira basilar, mas até um tanto quanto popularmente) a uma linha de trabalho espiritual de espíritos humanos (e não humanos) que já alcançaram alguma evolução e proximidade da Luz, de Deus (tendo por chefes de falanges os Orixás africanos). "Esquerda"  refere-se (também mais popularmente que oficialmente) a uma linha de trabalho espiritual de espíritos humanos (e podem haver não humanos também) que trabalham em uma vibração energética mais baixa, mais densa e que estão em evolução, entretanto ainda muito ligados à matéria e mais próximos dos humanos encarnados, por isso mais vulneráveis e suscetíveis a práticas más, se assim forem incitados pelo medium ou o consulente, razão pela qual o bom medium tem o dever de educá-los espiritualmente e ajudá-los em seu processo de evolução por meio da incorporação e aconselhamento às pessoas que os procuram, considerando isso também uma prática de caridade, pois a solução de problemas espirituais e materiais que esses espíritos proporcionam aos encarnado torna-se a caridade que os ajuda a evoluir e mudar sua condição energética (a Esquerda também tem supervisão e divisão em falanges, regidas por Orixás africanos, os quais equilibram a Ordem Espiritual).

Muito importante ressaltar a existência do sincretismos religioso entre Catolicismo, Espiritismo e religiosidades africanas das mais diferentes regiões da África, razão pela qual Orixás são identificados com nomes de santos católicos e existem nomenclaturas como "medium" e "mediunidade", próprias do Espiritismo (rf. Alan Kardec).

Em linhas gerais, e bem superficialmente, seria isso sobre a Umbanda conforme relatos ouvidos de seus praticantes e artigos lidos.

Minha religiosidade atualmente está voltada ao Candomblé, tradição de base africana construída no Brasil mediante conhecimentos orais de tradição e cultura ritualísticas trazidas com os africanos escravizados. Sua base está ancorada no culto de respeito e veneração aos ancestrais que são dignos representantes das forças primordiais do universo criado por Deus (chamado Olorun = Senhor do Céu), ou seja os elementos e elementais da Natureza. Os ancestrais a que venero com respeito pela sua sabedoria e conhecimento, na cultura iorubana, localizada principalmente na Nigéria, são chamados Orixás = sentinelas da cabeça (tradução literal).  Foram reis, rainhas, guerreiros, caçadores e caçadoras, príncipes, sábios que foram divinizados por Olorun e dados como guardiões de tribos, uma vez em sua forma espiritual, e passaram a representar, em clãs espirituais, essas forças primordiais (tornando-se "um" com elas mesmas).

Os escravizados africanos vindos desta região e demais regiões (cuja cultura e nomenclatura são diferentes, ainda que dentro do mesmo propósito e linha de raciocínio) misturaram-se nas senzalas e perpetuaram sua forma de culto, conhecimento da natureza e resistência cultural ao reorganizarem seu espaço sagrado perdido. Uma vez misturados na composição da sociedade brasileira passaram sua ascendência ancestral a cada um de nós que temos sangue africano nas veias. Por essa razão  diz-se e entende-se que cada pessoa tem um Orixá protetor e isso nos coloca ligados a alguma tribo ancestral cujo protetor foi o Orixá x, y, z...

O jogo de búzios que determina a ascendência da pessoa e seu Orixá e, dali em diante, uma vez dentro da religião, ela faz seu caminho de culto e respeito a Deus e aos Orixás que lhe protegem, bem como trabalha sua mediunidade e ajuda espíritos a evoluírem conjuntamente a este culto, isso se a comunidade a qual a pessoa for filiada também tiver rituais de Umbanda inseridos em seu contexto (o que é bastante comum no Brasil).

Começa-se dentro de uma comunidade afro-brasileira de Candomblé como um aspirante, o dito abian. Uma vez iniciado nos rituais a pessoa se torna yawo (noiva, tradução literal, também chamado elegun = escolhido), nome com o qual será reconhecido até ter 7 anos de caminho e obrigações ritualísticas completas, quando então passa a ser chamado de egbomi (irmão mais velho). São dadas obrigações ritualísticas depois de 1 ano da iniciação,  3 anos e 7 anos. Após isso há satisfações de  14 anos e 21 anos. Pessoas mais antigas dentro da religião fazem suas bodas de prata e ouro etc.

Quando se inicia e quando se dá as obrigações, ou ainda 24h antes de um ritual importante, fica-se de preceito: nada de relações sexuais, de álcool, de carne vermelha, ou coisas fortes que agridam a matéria (o corpo), além de se manter afastado de bares, igrejas, centros espiritas, e não passa perto de cemitérios, nem lugares com multidões, porque sempre há espíritos sem luz, seja pedindo ajuda, seja pra perturbar a ordem espiritual de quem ou onde tentam aproximarem-se. O kele (colar de miçangas usado bem colado ao pescoço) do nas obrigações, especialmente na iniciação, é um símbolo como uma aliança da pessoa com seu Orixá. Enquanto está no pescoço a pessoa está de preceito e vive uma vida austera, sem luxos, sem vaidades, dorme em esteira. Nesse período austero, apenas o Orixá, o guardião, aproxima-se da pessoa. Outros espíritos não se aproximam (para fins de incorporação), nem bons, nem ruins. Apenas o Orixá tem contato com o medium (como uma proteção contra influências espirituais), à exceção do ere, que é um espírito de uma criança, mensageira daquele Orixá. Erê = criança (tradução do Iorubá).

Finalizo esse breve esclarecimento com um esboço da hierarquia espiritual dentro do Candomblé e uma mensagem de combate à discriminação religiosa/racial.

Em primeiro lugar, o Candomblé não é uma religião politeísta, mas entende um Deus Único, Ser Supremo, criador de todas as coisas e também dos Orixás (como já elucidei anteriormente). Estes últimos recebem o mérito da divinização dado por este mesmo Deus para assim serem chamados e podem, dessa forma, contribuir na obra de perpétua criação e manutenção da Ordem espiritual do universo e da vida dos seres humanos encarnados e desencarnados.

Por fim, o Candomblé não é uma prática ritualística macabra e de magia negra como se ouve falar por quem desconhece a religião. Esse sistema religioso abraça a caridade e crê na influência e interferência das energias da Natureza para o bem do ser humano. O Mal é entendido como força oposta a esse Bem, pela falta de esclarecimento, e é justamente essa ignorância que conduz a práticas negativas e malignas de pessoas que, por seu livre-arbítrio e cedendo às pulsões de seus desejos e influências, escolhem a manipulação energética para a ocorrência desse mal. Ainda assim, estão sempre os Orixás a dar seus sinais pelos búzios e indicar os rituais necessários para a dissipação desse mal, chamando as pessoas que seguem por um caminho de equívocos a retornarem ao caminho da retidão e do Bem e a arcarem com as consequências das práticas que tiveram.

Que os olhos de irmandade, e jamais de acusação ou vingança, estejam em nossa face, a fim de que compreendamos que o verdadeiro Bem está na união daquilo que é comum e não na ênfase do que é diferente.

Axé!