segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Sobre Umbanda e Candomblé (breve reflexão e esclarecimento)

Há algum tempo havia sido questionado sobre princípios e práticas presentes nas religiões afro-brasileiras, mais precisamente sobre Umbanda e Candomblé. Pois bem, o que escrevo aqui hoje são conhecimentos sintetizados, obtidos por meio da observação, leitura bibliográfica e, principalmente, da vivência em comunidades de espiritualidade afro-brasileira, com sua tradição oral passada dos mais antigos para os mais novos participantes.

Um conhecido meu questionou-me sobre determinada nomenclatura que sempre ouvira falar em se tratando de regiões de matrizes africanas, que são as tão citadas "linha de direita" e "linha de esquerda". Essa nomenclatura faz parte da Umbanda, religião brasileira que mistura princípios do Catolicismo, Espiritismo e práticas culturais e religiosas africanas, além de princípios e cultos indígenas também.

"Direita", dentro da Umbanda, refere-se (não de maneira basilar, mas até um tanto quanto popularmente) a uma linha de trabalho espiritual de espíritos humanos (e não humanos) que já alcançaram alguma evolução e proximidade da Luz, de Deus (tendo por chefes de falanges os Orixás africanos). "Esquerda"  refere-se (também mais popularmente que oficialmente) a uma linha de trabalho espiritual de espíritos humanos (e podem haver não humanos também) que trabalham em uma vibração energética mais baixa, mais densa e que estão em evolução, entretanto ainda muito ligados à matéria e mais próximos dos humanos encarnados, por isso mais vulneráveis e suscetíveis a práticas más, se assim forem incitados pelo medium ou o consulente, razão pela qual o bom medium tem o dever de educá-los espiritualmente e ajudá-los em seu processo de evolução por meio da incorporação e aconselhamento às pessoas que os procuram, considerando isso também uma prática de caridade, pois a solução de problemas espirituais e materiais que esses espíritos proporcionam aos encarnado torna-se a caridade que os ajuda a evoluir e mudar sua condição energética (a Esquerda também tem supervisão e divisão em falanges, regidas por Orixás africanos, os quais equilibram a Ordem Espiritual).

Muito importante ressaltar a existência do sincretismos religioso entre Catolicismo, Espiritismo e religiosidades africanas das mais diferentes regiões da África, razão pela qual Orixás são identificados com nomes de santos católicos e existem nomenclaturas como "medium" e "mediunidade", próprias do Espiritismo (rf. Alan Kardec).

Em linhas gerais, e bem superficialmente, seria isso sobre a Umbanda conforme relatos ouvidos de seus praticantes e artigos lidos.

Minha religiosidade atualmente está voltada ao Candomblé, tradição de base africana construída no Brasil mediante conhecimentos orais de tradição e cultura ritualísticas trazidas com os africanos escravizados. Sua base está ancorada no culto de respeito e veneração aos ancestrais que são dignos representantes das forças primordiais do universo criado por Deus (chamado Olorun = Senhor do Céu), ou seja os elementos e elementais da Natureza. Os ancestrais a que venero com respeito pela sua sabedoria e conhecimento, na cultura iorubana, localizada principalmente na Nigéria, são chamados Orixás = sentinelas da cabeça (tradução literal).  Foram reis, rainhas, guerreiros, caçadores e caçadoras, príncipes, sábios que foram divinizados por Olorun e dados como guardiões de tribos, uma vez em sua forma espiritual, e passaram a representar, em clãs espirituais, essas forças primordiais (tornando-se "um" com elas mesmas).

Os escravizados africanos vindos desta região e demais regiões (cuja cultura e nomenclatura são diferentes, ainda que dentro do mesmo propósito e linha de raciocínio) misturaram-se nas senzalas e perpetuaram sua forma de culto, conhecimento da natureza e resistência cultural ao reorganizarem seu espaço sagrado perdido. Uma vez misturados na composição da sociedade brasileira passaram sua ascendência ancestral a cada um de nós que temos sangue africano nas veias. Por essa razão  diz-se e entende-se que cada pessoa tem um Orixá protetor e isso nos coloca ligados a alguma tribo ancestral cujo protetor foi o Orixá x, y, z...

O jogo de búzios que determina a ascendência da pessoa e seu Orixá e, dali em diante, uma vez dentro da religião, ela faz seu caminho de culto e respeito a Deus e aos Orixás que lhe protegem, bem como trabalha sua mediunidade e ajuda espíritos a evoluírem conjuntamente a este culto, isso se a comunidade a qual a pessoa for filiada também tiver rituais de Umbanda inseridos em seu contexto (o que é bastante comum no Brasil).

Começa-se dentro de uma comunidade afro-brasileira de Candomblé como um aspirante, o dito abian. Uma vez iniciado nos rituais a pessoa se torna yawo (noiva, tradução literal, também chamado elegun = escolhido), nome com o qual será reconhecido até ter 7 anos de caminho e obrigações ritualísticas completas, quando então passa a ser chamado de egbomi (irmão mais velho). São dadas obrigações ritualísticas depois de 1 ano da iniciação,  3 anos e 7 anos. Após isso há satisfações de  14 anos e 21 anos. Pessoas mais antigas dentro da religião fazem suas bodas de prata e ouro etc.

Quando se inicia e quando se dá as obrigações, ou ainda 24h antes de um ritual importante, fica-se de preceito: nada de relações sexuais, de álcool, de carne vermelha, ou coisas fortes que agridam a matéria (o corpo), além de se manter afastado de bares, igrejas, centros espiritas, e não passa perto de cemitérios, nem lugares com multidões, porque sempre há espíritos sem luz, seja pedindo ajuda, seja pra perturbar a ordem espiritual de quem ou onde tentam aproximarem-se. O kele (colar de miçangas usado bem colado ao pescoço) do nas obrigações, especialmente na iniciação, é um símbolo como uma aliança da pessoa com seu Orixá. Enquanto está no pescoço a pessoa está de preceito e vive uma vida austera, sem luxos, sem vaidades, dorme em esteira. Nesse período austero, apenas o Orixá, o guardião, aproxima-se da pessoa. Outros espíritos não se aproximam (para fins de incorporação), nem bons, nem ruins. Apenas o Orixá tem contato com o medium (como uma proteção contra influências espirituais), à exceção do ere, que é um espírito de uma criança, mensageira daquele Orixá. Erê = criança (tradução do Iorubá).

Finalizo esse breve esclarecimento com um esboço da hierarquia espiritual dentro do Candomblé e uma mensagem de combate à discriminação religiosa/racial.

Em primeiro lugar, o Candomblé não é uma religião politeísta, mas entende um Deus Único, Ser Supremo, criador de todas as coisas e também dos Orixás (como já elucidei anteriormente). Estes últimos recebem o mérito da divinização dado por este mesmo Deus para assim serem chamados e podem, dessa forma, contribuir na obra de perpétua criação e manutenção da Ordem espiritual do universo e da vida dos seres humanos encarnados e desencarnados.

Por fim, o Candomblé não é uma prática ritualística macabra e de magia negra como se ouve falar por quem desconhece a religião. Esse sistema religioso abraça a caridade e crê na influência e interferência das energias da Natureza para o bem do ser humano. O Mal é entendido como força oposta a esse Bem, pela falta de esclarecimento, e é justamente essa ignorância que conduz a práticas negativas e malignas de pessoas que, por seu livre-arbítrio e cedendo às pulsões de seus desejos e influências, escolhem a manipulação energética para a ocorrência desse mal. Ainda assim, estão sempre os Orixás a dar seus sinais pelos búzios e indicar os rituais necessários para a dissipação desse mal, chamando as pessoas que seguem por um caminho de equívocos a retornarem ao caminho da retidão e do Bem e a arcarem com as consequências das práticas que tiveram.

Que os olhos de irmandade, e jamais de acusação ou vingança, estejam em nossa face, a fim de que compreendamos que o verdadeiro Bem está na união daquilo que é comum e não na ênfase do que é diferente.

Axé!

0 reflexões: