Há algum tempo havia sido questionado sobre
princípios e práticas presentes nas religiões afro-brasileiras, mais
precisamente sobre Umbanda e Candomblé. Pois bem, o que escrevo aqui hoje são
conhecimentos sintetizados, obtidos por meio da observação, leitura
bibliográfica e, principalmente, da vivência em comunidades de espiritualidade
afro-brasileira, com sua tradição oral passada dos mais antigos para os mais
novos participantes.
Um conhecido meu questionou-me sobre determinada
nomenclatura que sempre ouvira falar em se tratando de regiões de matrizes
africanas, que são as tão citadas "linha de direita" e "linha de
esquerda". Essa nomenclatura faz parte da Umbanda, religião brasileira que
mistura princípios do Catolicismo, Espiritismo e práticas culturais e religiosas
africanas, além de princípios e cultos indígenas também.
"Direita", dentro da Umbanda, refere-se
(não de maneira basilar, mas até um tanto quanto popularmente) a uma linha de
trabalho espiritual de espíritos humanos (e não humanos) que já alcançaram
alguma evolução e proximidade da Luz, de Deus (tendo por chefes de falanges os
Orixás africanos). "Esquerda"
refere-se (também mais popularmente que oficialmente) a uma linha de
trabalho espiritual de espíritos humanos (e podem haver não humanos também) que
trabalham em uma vibração energética mais baixa, mais densa e que estão em
evolução, entretanto ainda muito ligados à matéria e mais próximos dos humanos
encarnados, por isso mais vulneráveis e suscetíveis a práticas más, se assim
forem incitados pelo medium ou o consulente, razão pela qual o bom medium tem o
dever de educá-los espiritualmente e ajudá-los em seu processo de evolução por
meio da incorporação e aconselhamento às pessoas que os procuram, considerando
isso também uma prática de caridade, pois a solução de problemas espirituais e
materiais que esses espíritos proporcionam aos encarnado torna-se a caridade
que os ajuda a evoluir e mudar sua condição energética (a Esquerda também tem
supervisão e divisão em falanges, regidas por Orixás africanos, os quais
equilibram a Ordem Espiritual).
Muito importante ressaltar a existência do
sincretismos religioso entre Catolicismo, Espiritismo e religiosidades
africanas das mais diferentes regiões da África, razão pela qual Orixás são
identificados com nomes de santos católicos e existem nomenclaturas como
"medium" e "mediunidade", próprias do Espiritismo (rf. Alan
Kardec).
Em linhas gerais, e bem superficialmente, seria
isso sobre a Umbanda conforme relatos ouvidos de seus praticantes e artigos
lidos.
Minha religiosidade atualmente está voltada ao
Candomblé, tradição de base africana construída no Brasil mediante
conhecimentos orais de tradição e cultura ritualísticas trazidas com os
africanos escravizados. Sua base está ancorada no culto de respeito e veneração
aos ancestrais que são dignos representantes das forças primordiais do universo
criado por Deus (chamado Olorun = Senhor do Céu), ou seja os elementos e
elementais da Natureza. Os ancestrais a que venero com respeito pela sua
sabedoria e conhecimento, na cultura iorubana, localizada principalmente na
Nigéria, são chamados Orixás = sentinelas da cabeça (tradução literal). Foram reis, rainhas, guerreiros, caçadores e
caçadoras, príncipes, sábios que foram divinizados por Olorun e dados como
guardiões de tribos, uma vez em sua forma espiritual, e passaram a representar,
em clãs espirituais, essas forças primordiais (tornando-se "um" com
elas mesmas).
Os escravizados africanos vindos desta região e
demais regiões (cuja cultura e nomenclatura são diferentes, ainda que dentro do
mesmo propósito e linha de raciocínio) misturaram-se nas senzalas e perpetuaram
sua forma de culto, conhecimento da natureza e resistência cultural ao
reorganizarem seu espaço sagrado perdido. Uma vez misturados na composição da
sociedade brasileira passaram sua ascendência ancestral a cada um de nós que
temos sangue africano nas veias. Por essa razão
diz-se e entende-se que cada pessoa tem um Orixá protetor e isso nos
coloca ligados a alguma tribo ancestral cujo protetor foi o Orixá x, y, z...
O jogo de búzios que determina a ascendência da
pessoa e seu Orixá e, dali em diante, uma vez dentro da religião, ela faz seu
caminho de culto e respeito a Deus e aos Orixás que lhe protegem, bem como
trabalha sua mediunidade e ajuda espíritos a evoluírem conjuntamente a este
culto, isso se a comunidade a qual a pessoa for filiada também tiver rituais de
Umbanda inseridos em seu contexto (o que é bastante comum no Brasil).
Começa-se dentro de uma comunidade afro-brasileira
de Candomblé como um aspirante, o dito abian. Uma vez iniciado nos rituais a
pessoa se torna yawo (noiva, tradução literal, também chamado elegun =
escolhido), nome com o qual será reconhecido até ter 7 anos de caminho e
obrigações ritualísticas completas, quando então passa a ser chamado de egbomi
(irmão mais velho). São dadas obrigações ritualísticas depois de 1 ano da
iniciação, 3 anos e 7 anos. Após isso há
satisfações de 14 anos e 21 anos.
Pessoas mais antigas dentro da religião fazem suas bodas de prata e ouro etc.
Quando se inicia e quando se dá as obrigações, ou
ainda 24h antes de um ritual importante, fica-se de preceito: nada de relações
sexuais, de álcool, de carne vermelha, ou coisas fortes que agridam a matéria
(o corpo), além de se manter afastado de bares, igrejas, centros espiritas, e
não passa perto de cemitérios, nem lugares com multidões, porque sempre há
espíritos sem luz, seja pedindo ajuda, seja pra perturbar a ordem espiritual de
quem ou onde tentam aproximarem-se. O kele (colar de miçangas usado bem colado
ao pescoço) do nas obrigações, especialmente na iniciação, é um símbolo como
uma aliança da pessoa com seu Orixá. Enquanto está no pescoço a pessoa está de
preceito e vive uma vida austera, sem luxos, sem vaidades, dorme em esteira.
Nesse período austero, apenas o Orixá, o guardião, aproxima-se da pessoa.
Outros espíritos não se aproximam (para fins de incorporação), nem bons, nem
ruins. Apenas o Orixá tem contato com o medium (como uma proteção contra
influências espirituais), à exceção do ere, que é um espírito de uma criança,
mensageira daquele Orixá. Erê = criança (tradução do Iorubá).
Finalizo esse breve esclarecimento com um esboço da
hierarquia espiritual dentro do Candomblé e uma mensagem de combate à
discriminação religiosa/racial.
Em primeiro lugar, o Candomblé não é uma religião
politeísta, mas entende um Deus Único, Ser Supremo, criador de todas as coisas
e também dos Orixás (como já elucidei anteriormente). Estes últimos recebem o
mérito da divinização dado por este mesmo Deus para assim serem chamados e
podem, dessa forma, contribuir na obra de perpétua criação e manutenção da
Ordem espiritual do universo e da vida dos seres humanos encarnados e
desencarnados.
Por fim, o Candomblé não é uma prática ritualística
macabra e de magia negra como se ouve falar por quem desconhece a religião.
Esse sistema religioso abraça a caridade e crê na influência e interferência
das energias da Natureza para o bem do ser humano. O Mal é entendido como força
oposta a esse Bem, pela falta de esclarecimento, e é justamente essa ignorância
que conduz a práticas negativas e malignas de pessoas que, por seu
livre-arbítrio e cedendo às pulsões de seus desejos e influências, escolhem a manipulação
energética para a ocorrência desse mal. Ainda assim, estão sempre os Orixás a
dar seus sinais pelos búzios e indicar os rituais necessários para a dissipação
desse mal, chamando as pessoas que seguem por um caminho de equívocos a
retornarem ao caminho da retidão e do Bem e a arcarem com as consequências das
práticas que tiveram.
Que os olhos de irmandade, e jamais de acusação ou
vingança, estejam em nossa face, a fim de que compreendamos que o verdadeiro
Bem está na união daquilo que é comum e não na ênfase do que é diferente.
Axé!