quarta-feira, 26 de março de 2008

Diálogo das perturbações interiores


Livre-arbítrio não existe! Claro que existe! O que te leva a crer que não? Ninguém tem liberdade de escolha. Isso não é livre-arbítrio, definitivamente. Mas Deus nos deixa livre para termos nossas escolhas. Por que você sempre recorre a Deus para te livrar de certos questionamentos? No fim das contas, é Ele quem responde, é Ele quem determina, é Ele quem diz "você tem sim livre-arbítrio", e você nunca assume o controle do que realmente pensa. "Amém!". Deus não te dá livre-arbítrio porque esse Maioral que você acredita te coloca só dois caminhos e você tem de escolher um - de preferência o Dele ou você é punido pela sua mão esmagadora... Ora, eu acredito, sim, em um ser superior, qual o problema? E minhas decisões são livres porque Ele não interfere no que decido. Existe o caminho bom e o ruim, é verdade, mas eu os escolhos, você vê? As escolhas são minhas, com suas respectivas conseqüências, também boas ou ruins. Ah claro, você decide entre os caminhos que Deus te apresenta, e isso é livre-arbítrio para você: estar submetido a caminhos pré-determinados por um ser superior. "Você tem este caminho que vai te levar à tristeza e este outro que vai te levar à felicidade, escolhe!". Isso é ser livre? Por esta razão me coloco de fora do livre-arbítrio, dessa discussão religiosa, e posso ter minhas próprias escolhas, em caminhos outros que decidir, ora entrando, ora saindo daqueles que dizem ser "os únicos", sem culpa, pois não me submeto a doutrina alguma, olho-as panoramicamente. Então você se considera livre? Eu não acredito em liberdade. Estamos a todo momento sendo escravos de algo, seja um discurso, um pensamento, um desejo, uma roupa. Por que eu simplesmente não posso usar uma roupa de ninfa grega e sair andando pela rua? Por que não? Porque não existe! E como não existe, eu uso o que determinaram que deve ser vendido nas malditas lojas! Você vê? No seu mundo cético também não há liberdade. Se não se é sumetido a Deus, se é aos homens. E melhor é me submeter a Deus, que não me pune pelas minhas escolhas, ao contrário do que você disse. Ele me deixa aprender com a própria vida. Ah, que belo! Deus é a mãe que vê a filha se aprontando para o baile da escola e sabe que tem um menino lá de olho nela; ela sabe que os dois vão acabar na cama, mas não faz nada! "Vai filha, vai ao baile, como você decidiu!". Então eu pergunto: qual o papel de Deus? Para que Ele existe se é só o voyer do plano espiritual? A despeito do seu exemplozinho nietzcheniano, penso que Deus nos trata sem dar nada na boca. É como se nos desse o alimento e deixasse a nossa escolha comê-lo ou não. Caso o coma, terei um corpo fortalecido, sendo a conseqüência boa; caso não, vulnerabilizo meu organismo, sendo a conseqüência ruim dessa escolha diferente. Não seria triste saber que nossas escolhas não influeciam em nada no pós-morte, que tudo acaba com o fim da vida biológica? Mas é natural! Impressionantemente o ser humano não aceita o fim das coisas. Se não aceita o fim de um simples relacionamento, sequer aceitará o fim da vida! E daí vêm as explicações e suposições para sua existência... E qual o sentido da vida se minhas escolhas terminam todas debaixo da terra ou em pó numa urna? Deixar um legado para a humanindade, ser lembrado, memorado nas páginas de um livro, nos discursos, nos pensamentos... É sublime! Ora, se não vou ter consciência para experienciar essa ocasião de ovacionamento, que sentido ainda teria isso? Acredite como quiser, meu amigo, afinal cada um tem uma verdade, é o que dizem. Contudo, o fato inexoravelmente empírico é que tudo acaba com a morte. É preciso aceitar essa realidade. E o que eu faço com as outras?

2 reflexões:

Roses disse...

Meu deus, como posso visualizar perfeitamente essa discussao... pois eh... e esse lance de livre arbitrio existe?? pra mim existe um livre arbitrio mas naum liberdade... eu posso mto bem escolher entre dois restaurantes baratinhus pra comer, mas eu naum posso decidir agora e almoçar num restaurante japones, lah, no Japao...
posso escolher dentro de minhas possibilidades, dentro das minhas contingencias.. e esse eh um dos dilemas existenciais mais discutidos, q porra de liberdade eh essa q me restringe?? agora, olhando pelo aspecto religioso, outras tantas perguntas e certezas me assolam... se deus ve o futuro e eh bom, pq diabos ele me deixa escolher o errado?? se deus eh misericordioso, pq os milagres naum me tiram das roubadas em q me meto?? Na verdade, justamente por ser bom, ele me permite a escolha, ele abre o caminho q eu jah tinha fechado, ele permite o meu caminhar pelo bosque, ainda q eu persista e escolher a escuridao... e naum eh obrigaçao dele me livrar das consequencias, eu as criei como ser autonomo, resolvi me desvirtuar e agora tenho q sentir o q causei, apelando pra dita misericordia...
e apelando pra minha veia sartreana eu continuo gritando, ha sempre uma escolha, o problema eh q as vezes ela eh tao obvia q vc num percebe q escolheu...
ixi to atrasada jah!
fui!
bjuu!

Ricardo Moura disse...

Passei aqui pra conferir a tal ´´leitura obrigatória´´.
Realmente, precisava vê-la concreta já que na minha cabeça ( como na de uma miríade de pessoas)ela ja existe a tanto tempo....
Cada vez mais vejo sem olhar, ou olho sem ver, essa liberdade-arbitrio...posso escolher entre uma banana maçã e uma banana prata dentro da minha jaula!