sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
terça-feira, 27 de março de 2012
Do outro lado

Depois de milhares de anos...
Era um dia comum, de rotinas a serem cumpridas, exceto pelo fato de que algumas pessoas haviam sido escolhidas para uma viagem interplanetária. Incrivelmente eu também havia sido escolhido, arrumei minhas malas e embarquei. Ao longa da viagem todos adormeceram, e nada recordamos do trajeto até a base de pouso em que nos encontrávamos. Havíamos chegado a um planeta parecido com a Terra.
Na recepção dos terráqueos conversei com outros que estavam no ônibus espacial comigo. Eram pessoas conhecidas, que não tinham muito contato comigo na Terra, mas que acabaram se aproximando, talvez pela condição em que nos encontrávamos. Estranhávamos os seres humanos habitantes daquele planeta. Eram estranhos, desconfiados e monitoravam os terráqueos, mandando alguns de nós para abrigos, sem qualquer razão que nos fosse plausível.
No hall de entrada, havia uma réplica daquele planeta em miniatura, com formato e textura de queijo. Os habitantes acreditavam que a parte consistente era onde estavam os vivos e a parte mais mole era onde os mortos habitavam. Eu olhava a miniatura, juntamente com uma conhecida da viagem, com estranheza, perguntando a ela se aquilo poderia ser verdade.
Em um dado momento, já agoniados com tanto mistério sobre o que estava realmente havendo, juntamo-nos em um grupo, os que tinham mais afinidade, e saímos daquele local para explorar os arredores, em busca de respostas. Ao ar livre, o clima era diferente, meio pesado e frio, e havia muitas paisagens belas, similares às da Terra, já outras eram estranhas, retorcidas, montanhosas e cristalizadas.
Nossa ausência foi logo percebida e vimos guardas vindo em nossa direção, mas os despistamos entrando em uma espécie de caverna cristalizada, meio retorcida, próximo de onde aterrizamos. Estávamos com medo, mas também sabíamos que não deveríamos voltar. De repente vimos silhuetas aproximarem-se e nos unimos mais, abraçando-nos. Estávamos com medo de que fossem os guardas, e rezamos. Quando aquelas imagens de pessoas revelaram-se, foi um espanto e também um alívio: eram 4 jovens, 3 meninos e 1 menina, que nos perguntaram porque estávamos ali.
A porta-voz deles foi a menina, a única que parecia nos ver de fato. Os demais apenas nos ouviam. Falamos que fugíamos dos guardas, mas os jovens não compreendiam e diziam apenas que não deveríamos estar ali. A garota pediu para que fôssemos com ela e os demais rapazes, então os seguimos. Eles nos levaram até uma espécie de nave, um disco oval, um pouco achatado todo branco, que sairia da plataforma onde desembarcamos. Despistamos a segurança e entramos na espaçonave. Mesmo sem saber dirigir corretamente aquela máquina, fomos guiados pelo instinto e pelo raciocínio lógico para fazê-la se deslocar. Infelizmente foi por um curto período, pois não fomos capazes de evadir a atmosfera do planeta, sendo reconduzidos pelo sistema de segurança local à base de decolagem.
Ao retornar, percebemos que não havia como sair de lá e começamos a refletir sobre o que realmente tinha acontecido conosco para terem-nos colocado naquela viagem rumo a um planeta desconhecido. Os guardas reconduziram-nos à recepção dos terráqueos e, posteriormente, ao abrigo. Olhávamos ao redor e sabíamos que não era uma cortesia daquelas pessoas estarmos ali. Éramos prisioneiros, estávamos certos disso. A noite caiu e contemplamos um céu espetacular: milhares de estrelas completamente diferentes das que estávamos acostumados. Planetas vistos claramente a olho nú, em imagens giganstescas, e luas ao seu redor. Estávamos em um mundo completamente novo, estranhamente novo. Finalmente o sono veio e dormimos.
Eu me vi no alto, a contemplar a terra e vi meu país, minha cidade, e um grande amigo de muito tempo, o Thiago, a quem chamava de Tico. Não imaginava, no sonho - e nem poderia - que estava tão distante daquele contexto. Apenas peguei meu celular e liguei para ele, como nos velhos tempos, quando ligava da minha casa. Ele atendeu e comecei a perguntar o que tinha acontecido comigo, por que estava preso ali onde estava, se desejava tanto estar perto dele e das pessoas com quem convivia. Percebi que o Thiago ficou todo o tempo em silêncio, enquanto eu falava. Algo estava definitivamente errado.
Ele começou a dizer que não acreditava que estava fazendo uma ligação para o seu celular, que aquilo era impossível. Eu não poderia ligar, estava morto! Todos que estavam comigo estavam mortos!
Acordei repentinamente e fiz os outros levantarem. Contei-lhes o sonho e choramos. Sim, tudo agora fazia sentido, estávamos mortos. E revivemos em nossas mentes cada momento da viagem, a recepção tensa, a fuga, os jovens que podiam nos ver e não entendiam o porquê de estarmos ali. Éramos espíritos, fizemos uma intersecção com o mundo dos vivos nas cavernas cristalizadas, por isso eles nos viram. Eram dotados desses dons de comunicação com os mortos e de guiá-los, mas eram jovens demais, sabiam apenas em parte o que estavam fazendo e, por isso, levaram-nos para fugir dos guardas, ou melhor, guardiões. Eles protegiam as passagens de intersecção para que não houvesse volta ao mundo dos vivos, o que não realizavam com tanto sucesso ante a força de vontade dos corações dos recém-chegados de estarem juntos dos seus.
No fim, encontros e partidas, a grande lição a ser aprendida era deixar os pedaços que restaram para trás e aprender a viver o que estava por vir de uma nova vida.
segunda-feira, 19 de abril de 2010
Pausa
Parei.
Dessas paradas que a gente dá de repente, ante uma provocação.
Estava aqui diante do computador, assitindo uma videoaula, assimilando teorias, conhecimentos... E me vi ante uma provocação: a valorização do profissional que sou, pela sociedade, por mim mesmo. Duro é pensar sobre si mesmo criticamente. Pior é pensar-se criticamente e ser pelo meio que se pretende modificar desvalorizado.
Oras, o que estou fazendo? Estudando para quê? Para perpertuar um modus vivendi assim, mais ou menos, que só vai me mudar de cidade, se passar num outro concurso, mas sob condições profissionais semelhantes?
Que motivação me leva ao comprometimento profissional? O estresse diário? Não. O pouco interesse das mentes às quais supostamente medio a aquisição de um suposto conhecimento? Não. Mas há algo, ainda há algo... Certamente não seria a necessidade de superação das dificuldades financeiras; essas todo mundo de alguma forma tem (todo mundo que tem uma profissão, digamos, não muito geradora de lucros). Não?
Então continuei a observar a videoaula. Eis que foi citado um pensamento exposto no livro Gabriela, cravo e canela, que reflete o pensamento político da época de seu lançamento, mas que me ironicamente pareceu-me bem atualizado:
"E que é um professor, na ordem das coisas?
Que tem o ensino a ver com poder?
Como podem as palavras se comparar com as armas?
Por acaso a linguagem já destruiu e construiu mundos?"
(resposta que a mãe dá à filha quando esta lhe diz que vai casar-se com um professor).
E que é o eu-professor, na ordem das coisas? E que eu sou, na ordem das coisas? Qual é mesmo essa ordem das coisas?
Até recorrer à historinha do menino que lança de volta à água as estrelas-do-mar amontoadas na praia, acreditando que pode fazer diferença ao menos àquela que lança - já que não pode salvar todas -, eu recorri. Que otimista!
Às vezes considero que refletir é prejudicial, sabe. A gente aprende na Academia que não, que é prática essencial e transformadora de realidades. A minha não se modificou... E quem formulou essa teoria já morreu.
Então pergunto por que, ó Deus, enredei-me pelos caminhos crítico-sociais? Por que não me tornei burguês? E se não me tornei, por que diabos não vivo como muitos outros que também não se tornaram, não se interessam por reflexões transformadoras, e para quem a felicidade é garantir um "churrasco e pagode" todo fim-de-semana?
Droga, perdi a hora! Tenho que voltar aos estudos.
